{"id":2856,"date":"2014-10-27T16:46:34","date_gmt":"2014-10-27T19:46:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?p=2856"},"modified":"2014-10-27T16:46:34","modified_gmt":"2014-10-27T19:46:34","slug":"a-impunidade-do-sagrado-motor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?p=2856","title":{"rendered":"A Impunidade do Sagrado Motor"},"content":{"rendered":"<p>Por <a href=\"http:\/\/vadebici.wordpress.com\/2011\/11\/29\/a-impunidade-do-sagrado-motor\/\">V\u00e1 de Bici<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cap\u00edtulo extra\u00eddo do livro\u00a0<em>De Pernas Pro Ar \u2013 A escola do mundo ao avesso<\/em>, de Eduardo Galeano:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/0002.jpeg\"><img decoding=\"async\" title=\"0002\" alt=\"\" src=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/0002.jpeg?w=210&amp;h=300\" \/><\/a>Os direitos humanos se humilham aos p\u00e9s dos direitos das m\u00e1quinas. S\u00e3o cada vez mais numerosas as cidades, sobretudo cidades do sul, onde as pessoas s\u00e3o proibidas. Impunemente, os autom\u00f3veis usurpam o espa\u00e7o humano, envenenam o ar e, freq\u00fcentemente, assassinam os intrusos que invadem seu territ\u00f3rio conquistado.\u00a0 Qual a diferen\u00e7a entre a viol\u00eancia que mata com motor e a viol\u00eancia que mata com faca ou bala?<br \/>\n<strong>O Vaticano e suas liturgias<\/strong><\/p>\n<p>Este fim\u00a0 de s\u00e9culo despreza o transporte p\u00fablico. Quando o s\u00e9culo vinte estava na metade de sua vida, os europeus usavam trens, \u00f4nibus, metr\u00f4s e bondes para tr\u00eas quartas partes de suas idas e vindas. Atualmente, a m\u00e9dia caiu na Europa para uma quarta parte. E isso ainda \u00e9 muito, comparando-se com os Estados Unidos da Am\u00e9rica, onde o transporte p\u00fablico, virtualmente extinto na maioria das cidades, s\u00f3 corresponde a cinco porcento do transporte total.<br \/>\nPor volta dos anos vinte, Henry Ford e Harvey Firestone , eram muito bons amigos e se davam muito bem com a fam\u00edlia Rockefeller. Este carinho rec\u00edproco resultou numa alian\u00e7a de influ\u00eancias, que muito teve a ver com o desmantelamento das vias f\u00e9rreas e a cria\u00e7\u00e3o de uma vasta rede de estradas, logo transformadas em autopistas, em todo o territ\u00f3rio norte-americano. Com a passagem dos anos, tornou-se cada vez mais aplastante, nos Estados Unidos e no mundo todo, o poder dos fabricantes de autom\u00f3veis, dos fabricantes de pneus e dos industriais do petr\u00f3leo. Das sessenta maiores empresas do mundo, a metade pertence a esta santa alian\u00e7a ou trabalha para ela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/0003.jpeg\"><img decoding=\"async\" title=\"0003\" alt=\"\" src=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/0003.jpeg?w=227&amp;h=300\" \/><\/a>O para\u00edso do fim do s\u00e9culo: nos Estados Unidos se concentra o maior n\u00famero de autom\u00f3veis do mundo e tamb\u00e9m o maior n\u00famero de armas. Seis, seis, seis: de cada seis d\u00f3lares que gasta o cidad\u00e3o m\u00e9dio, um \u00e9 destinado ao autom\u00f3vel; de cada seis horas de vida, uma \u00e9 dedicada a andar no autom\u00f3vel ou a trabalhar para pag\u00e1-lo; e de cada seis empregos, um esta direta ou indiretamente relacionado com o autom\u00f3vel e outro com a viol\u00eancia e suas ind\u00fastrias. Quanto mais pessoas os autom\u00f3veis e as armas assassinam, quanto mais natureza arrasam, mais cresce o Produto Nacional Bruto.<\/p>\n<p>Talism\u00e3s contra o desamparo ou convites para o crime? A venda de autom\u00f3veis \u00e9 sim\u00e9trica \u00e0 venda de armas e poder-se-ia dizer que faz parte dela: os autom\u00f3veis s\u00e3o a principal causa de morte entre os jovens, seguidos das armas de fogo. Os acidentes de tr\u00e2nsito matam e ferem, anualmente, mais norte-americanos do que todos os norte-americanos mortos e feridos ao longo da guerra do Vietn\u00e3, e em numerosos estados da Uni\u00e3o a carteira de motorista \u00e9 o \u00fanico documento necess\u00e1rio para que qualquer pessoa possa comprar um fuzil autom\u00e1tico e com ele peneirar a bala\u00e7os toda a vizinhan\u00e7a. Tamb\u00e9m \u00e9 usada para pagar com cheques ou receb\u00ea-los, para tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos ou na assinatura de contrato. A carteira de motorista faz as vezes de documento de identidade: s\u00e3o os autom\u00f3veis que outorgam identidade \u00e0s pessoas.<\/p>\n<p>Os norte-americanos usam uma das gasolinas mais baratas do mundo, gra\u00e7as aos xeques de \u00f3culos escuros, aos reis de opereta\u00a0 e outros aliados da democracia que se dedicam a vender mal o petr\u00f3leo, a violar os direitos humanos e a comprar armas norte-americanas. Segundo os c\u00e1lculos do Worldwatch Institute, se levados em conta os danos ecol\u00f3gicos e outros custos ocultos, o pre\u00e7o da gasolina, quando menos, deveria valer o dobro. Nos Estados Unidos, a gasolina \u00e9 tr\u00eas vezes mais barata do que na It\u00e1lia, que ocupa o segundo lugar do mundo entre os pa\u00edses mais motorizados; e cada norte-americano queima, em m\u00e9dia, quatro vezes mais combust\u00edvel do que um italiano, que por sua vez j\u00e1 queima bastante.\u00a0 Esta sociedade norte-americana, enferma de carrolatria, gera a quarta parte dos gases que mais envenenam a atmosfera. Os autom\u00f3veis, sedentos de gasolina, s\u00e3o em boa parte respons\u00e1veis por esse desastre, mas os pol\u00edticos lhes garantem a impunidade em troca de dinheiro e votos. Cada vez que algum louco sugere o aumento dos impostos da gasolina, os big three de Detroit (General Motors, Ford e Chrysler) p\u00f5em a boca no mundo e promovem campanhas milion\u00e1rias e de ampla repercuss\u00e3o popular, denunciando t\u00e3o grave amea\u00e7a \u00e0s liberdades p\u00fablicas. E quando algum politico se sente assaltado pela d\u00favida, as empresas Ihe aplicam uma terapia infal\u00edvel para esse mal-estar: corno constatou certa vez a revista Newsweek, \u201c\u00e9 t\u00e3o org\u00e2nica a rela\u00e7\u00e3o entre o dinheiro e a pol\u00edtica, que tentar mud\u00e1-la seria o mesmo que pedir a um cirurgi\u00e3o que fizesse em si mesmo uma opera\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o aberto\u201d.<\/p>\n<p>Raro \u00e9 o caso do pol\u00edtico, democrata ou republicano, capaz de cometer algum sacril\u00e9gio contra o modo de vida nacional, fundado na venera\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina e no esbanjamento dos recursos naturais do planeta. Imposto como modelo universal, esse modo de vida, que identifica o desenvolvimento humano ao crescimento econ\u00f4mico, realiza milagres que a publicidade exalta e dos quais o mundo inteiro gostaria de participar. Nos Estados Unidos, qualquer um pode realizar o sonho do carro pr\u00f3prio e s\u00e3o muitos os que podem trocar de carro com freq\u00fc\u00eancia. E se o dinheiro n\u00e3o \u00e9 suficiente para o \u00faltimo modelo, a crise de identidade pode ser resolvida corn aeross\u00f3is que o mercado oferece para dar cheiro de novo ao carrossauro comprado h\u00e1 tr\u00eas ou quatro anos.<\/p>\n<p>P\u00e2nico da velhice: a velhice, como a morte, identifica-se ao fracasso. O autom\u00f3vel, promessa de eterna juventude, \u00e9 o \u00fanico corpo que se pode comprar. Este corpo, abastecido de gasolina e \u00f3leo em seus restaurantes, disp\u00f5e de farmacias onde lhe d\u00e3o rem\u00e9dios e de hospitais onde o examinam, diagnosticam\u00a0 seu mal eo curam, e tem dormit\u00f3rios para descansar e cemit\u00e9rios para morrer.<\/p>\n<p>Ele promete liberdade \u00e0s pessoas \u2013 n\u00e3o \u00e9 por nada que as autopistas s\u00e3o chamadas freeways, caminhos livres \u2013 e no entanto, atua corno uma jaula ambulante. O tempo de trabalho humano aumenta, apesar do progresso tecnol\u00f3gico, e tamb\u00e9m aumenta, ano ap\u00f3s ano, o tempo necess\u00e1rio para ir e vir do trabalho, por causa dos engarrafamentos do tr\u00e2nsito, que obrigam a avan\u00e7ar a duras penas e trituram os nervos: vive-se dentro do autom\u00f3vel e ele n\u00e3o te solta. Drive-in shooting: sem sair do carro, a toda velocidade, pode-se apertar o gatilho e atirar sem apontar para ningu\u00e9m, como \u00e0s vezes acontece nas noites de Los Angeles. Drive-thru teller, drive-in restaurant: sem sair do carro pode-se tirar dinheiro do banco e comer hamb\u00fargueres. E sem sair do carro tamb\u00e9m se pode casar, drive-in marriage: em Reno, Nevada, o autom\u00f3vel do casal passa sob arcos de flores de pl\u00e1stico; numa janelinha aparece a testemunha, noutra o pastor que, b\u00edblia na m\u00e3o, declara-os marido e mulher; e na sa\u00edda, uma funcion\u00e1ria provida de asas e de aur\u00e9ola entrega a certid\u00e3o de casamento e recebe o pagamento, que se chama love donation.<\/p>\n<p>O autom\u00f3vel, corpo compr\u00e1vel, move-se em Iugar do corpo humano, que permanece quieto e engorda; e o corpo mec\u00e2nico\u00a0 tem mais direitos do que o de carne e osso. Como se sabe, os Estados Unidos tem promovido nesses \u00faltimos anos uma guerra santa contra o dem\u00f4nio do fumo. Vi numa revista um an\u00fancio de cigarros, atravessado pela obrigat\u00f3ria advert\u00eancia de perigo \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. A tarja dizia: O fumo do cigarro cont\u00e9m mon\u00f3xido de carbono. Na mesma revista, no entanto, havia v\u00e1rios an\u00fancios de autom\u00f3veis e nenhum advertia que a fuma\u00e7a dos autom\u00f3veis cont\u00e9m muito mais mon\u00f3xido de carbono. As pessoas n\u00e3o podem fumar. Os autom\u00f3veis, sim.<\/p>\n<p>Com as m\u00e1quinas ocorre o que costuma ocorrer com os deuses: nascem a servi\u00e7o dos homens, m\u00e1gicos exorcismos contra o medo e a solid\u00e3o, e acabam pondo os homens a seu servi\u00e7o. A religi\u00e3o do autom\u00f3vel, com seu Vaticano nos Estados Unidos, traz o mundo de joelhos: sua difus\u00e3o produz cat\u00e1strofes e as c\u00f3pias multiplicam at\u00e9 o del\u00edrio os defeitos do original.<\/p>\n<p>Pelas ruas latino-americanas circula uma \u00ednfima parte dos autom\u00f3veis do mundo, mas algumas das cidades mais contaminadas do mundo est\u00e3o na Am\u00e9rica Latina. As estruturas da injusti\u00e7a heredit\u00e1ria e as ferozes contradi\u00e7\u00f5es sociais geraram, no sul do mundo, cidades que crescem al\u00e9m de todo o controle poss\u00edvel monstros desmesurados e violentos: a importa\u00e7\u00e3o da f\u00e9 no deus de quatro rodas e a identifica\u00e7\u00e3o da democracia ao consumo tem efeitos mais devastadores do que qualquer bombardeio.<\/p>\n<p>Nunca tantos sofreram tanto por t\u00e3o poucos. O transporte\u00a0 p\u00fablico desastroso e a inexist\u00eancia de ciclovias tornam pouco menos do que obrigat\u00f3rio o uso do autom\u00f3vel<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/316033_10150372729810796_702460795_8529053_424956485_n.jpg?w=293&amp;h=392\" width=\"293\" height=\"392\" \/>particular, mas quantos podem dar-se ao luxo? Os latino-americanos que n\u00e3o tem carro pr\u00f3prio n\u00e3o poder\u00e3o compr\u00e1-lo nunca, vivem encurralados pelo tr\u00e1fego e afogados no smog. As cal\u00e7adas diminuem ou desaparecem, as dist\u00e2ncias aumentam, h\u00e1 cada vez mais carros, que se cruzam e cada vez menos pessoas que se encontram. Os \u00f4nibus n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o escassos: para piorar, na maioria de nossas cidades o transporte p\u00fablico corre por conta de uns desarranjados calhambeques, que lan\u00e7am mortais fumaceiras pelos canos de escape e multiplicam a contamina\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de alivi\u00e1-la.<\/p>\n<p>Em nome da liberdade de empresa, da liberdade de circula\u00e7\u00e3o e da liberdade de consumo, torna-se irrespir\u00e1vel o ar do mundo. O autom\u00f3vel n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico culpado da cotidiana matan\u00e7a do ar, mas \u00e9 o pior inimigo dos seres humanos, que foram reduzidos condi\u00e7\u00e3o de seres urbanos. Nas cidades de todo o planeta, o autom\u00f3vel gera a maior parte do coquetel de gases que afeta os br\u00f4nquios, os olhos e o resto, e tamb\u00e9m gera a maior parte do\u00a0 ru\u00eddo e das tens\u00f5es que afetam os ouvidos e os nervos. No norte do mundo, os autom\u00f3veis, em regra, est\u00e3o obrigados a utilizar combust\u00edveis e tecnologias que, ao menos, reduzem a intoxica\u00e7\u00e3o provocada por cada ve\u00edculo, o que poderia melhorar bastante as coisas se os carros n\u00e3o se reproduzissem como moscas. No sul \u00e9 muito pior. Em raros casos a lei obriga o uso de gasolina sem chumbo e catalizadores, e nesses raros casos, em regra, a lei \u00e9\u00a0 acatada mas n\u00e3o \u00e9 cumprida, segundo quer a tradi\u00e7\u00e3o que vem dos tempos coloniais. Com criminosa impunidade, as ferozes descargas de chumbo entram no sangue e agridem os pulm\u00f5es, o f\u00edgado, os ossos e a alma.<\/p>\n<p>Algumas das maiores cidades latino-americanas vivem dependentes da chuva e dos ventos, que limpam o ar e levam o veneno para outro lugar. A cidade do M\u00e9xico, a mais povoada do mundo, vive em estado de perp\u00e9tua emerg\u00eancia ambiental. H\u00e1 cinco seculos, um canto azteca perguntava:<\/p>\n<p><em>Quem poder\u00e1 sitiar Tenochtitlan?\u00a0<\/em><br \/>\n<em>Quem poder\u00e1 abalar os alicerces do ceu?<\/em><\/p>\n<p>Atualmente, na cidade que outrora se chamou Tenochtitl\u00e1n, sitiada pela contamina\u00e7\u00e3o, os beb\u00eas nascem com chumbo no sangue e, de cada tr\u00eas cidad\u00e3os, um padece de freq\u00fcentes dores de cabe\u00e7a. Os conselhos do governo para a popula\u00e7\u00e3o, diante das devasta\u00e7\u00f5es da praga motorizada, parecem li\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas para o enfrentamento de uma invas\u00e3o marciana. Em 1995, a Comiss\u00e3o Metropolitana de Preven\u00e7\u00e3o e Controle da Contamina\u00e7\u00e3o Ambiental recomendou aos habitantes da capital mexicana que, nos chamados \u201cdias de conting\u00eancia ambiental\u201d,\u00a0<em>permane\u00e7am o menor tempo poss\u00edvel ao ar livre, mantenham fechadas as portas, janelas e outras aberturas e n\u00e3o pratiquem exerc\u00edcios entre as 10 e as 16 horas<\/em>.<\/p>\n<p>Nesses dias, cada vez mais freq\u00fcentes, mais de meio milh\u00e3o de pessoas requer algum tipo de assist\u00eancia m\u00e9dica, pelas dificuldades para respirar, naquela que outrora foi \u201ca regi\u00e3o do ar mais transparente\u201d. No fim de 1996, quinze camponeses do estado de Guerrero vieram \u00e0 cidade do M\u00e9xico fazer uma manifesta\u00e7\u00e3o para denunciar injusti\u00e7as: todos foram parar no hospital p\u00fablico.<\/p>\n<p>Longe dali, noutro dia do mesmo ano, choveu torrencialmente na cidade de S\u00e3o Paulo. O tr\u00e2nsito enlouqueceu a tal ponto que produziu o pior engarrafamento da hist\u00f3ria nacional. O prefeito, Paulo Maluf, festejou:<\/p>\n<p><em>&#8211; Os engarrafamentos sao sinais de progresso.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/midia-indoor-wap-radial-leste-sao-paulo-transito-carro-congestionamento-via-automovel-automoveis-engarrafamento-motoboy-1276605874109_200x285.jpg\"><img decoding=\"async\" title=\"midia-indoor-wap-radial-leste-sao-paulo-transito-carro-congestionamento-via-automovel-automoveis-engarrafamento-motoboy-1276605874109_200x285\" alt=\"\" src=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/midia-indoor-wap-radial-leste-sao-paulo-transito-carro-congestionamento-via-automovel-automoveis-engarrafamento-motoboy-1276605874109_200x285.jpg?w=640\" \/><\/a>Mil carros novos aparecem a cada dia nas ruas de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo respira nos domingos e se asfixia no resto da semana. S\u00f3 aos domingos se pode ver, \u00e0 dist\u00e2ncia, a cidade habitualmente envolta numa nuvem de gases. Tamb\u00e9m o prefeito do Rio de Janeiro, Luiz Paulo Conde elogiou as tranqueiras do tr\u00e2nsito: gra\u00e7as a essa ben\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o urbana, os automobilistas podem viver melhor falando pelo telefone celular, assistindo a televis\u00e3o port\u00e1til e alegrando ouvidos com as fitas e os ced\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211;<em>\u00a0No futuro &#8211;<\/em>\u00a0anunciou o prefeito\u00a0<em>&#8211; uma cidade sem engarrafamentos ser\u00e1 muito aborrecida.<\/em><\/p>\n<p>Enquanto a autoridade carioca formulava essa profecia, ocorreu uma cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica em Santiago do Chile. Suspenderam-se as aulas e uma multid\u00e3o de crian\u00e7as superlotou os servi\u00e7os de assist\u00eancia m\u00e9dica. Em Santiago do Chile, como j\u00e1 denunciaram os ecologistas, cada crian\u00e7a que nasce respira o equivalente a sete cigarros di\u00e1rios e uma em cada quatro sofre de alguma forma de bronquite. A cidade est\u00e1 separada do c\u00e9u por um guarda-chuva de contamina\u00e7\u00e3o, que nos \u00faltimos quinze anos duplicou sua densidade enquanto se duplicava, tamb\u00e9m, o n\u00famero de autom\u00f3veis.<\/p>\n<p>Ano ap\u00f3s ano, v\u00e3o-se envenenando os\u00a0<em>aires<\/em>\u00a0da cidade chamada Buenos Aires, no mesmo ritmo em que v\u00e3o aumentando os autom\u00f3veis, em torno de meio milh\u00e3o por ano. Em 1996, eram dezesseis os bairros de Buenos Aires com n\u00edveis de ru\u00eddo muito perigosos, ru\u00eddos perp\u00e9tuos do tipo que, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, \u201cpode produzir danos irrevers\u00edveis \u00e0 sa\u00fade humana\u201d. Charles Chaplin gostava de dizer que o sil\u00eancio \u00e9 o ouro dos pobres. Passaram-se os anos e o sil\u00eancio \u00e9 cada vez mais um privil\u00e9gio dos poucos que podem pagar por ele.<\/p>\n<p>A sociedade de consumo nos imp\u00f5e sua simbologia do poder e sua mitologia da ascens\u00e3o social. A publicidade convida para que se entre na classe dominante, por obra e gra\u00e7a da m\u00e1gica chavezinha que liga o motor do autom\u00f3vel:\u00a0<em>Imponha-se!<\/em>, manda a voz que dita as ordens do mercado, e tamb\u00e9m:\u00a0<em>Voc\u00ea manda!<\/em>, e tamb\u00e9m:\u00a0<em>Demonstre sua personalidade!<\/em>\u00a0E se voc\u00ea puser um tigre no seu tanque, segundo os cartazes que recordo desde a minha inf\u00e2ncia, voce sera mais veloz e poderoso do que todos e esmagar\u00e1 aquele que quiser obstruir seu caminho para o \u00eaxito. A linguagem fabrica a realidade ilus\u00f3ria que a publicidade precisa inventar para vender. Mas a realidade real tem muito pouco a ver com essas feiti\u00e7arias comerciais. A cada duas crian\u00e7as que nascem no mundo, nasce um autom\u00f3vel. E cada vez nascem mais autom\u00f3veis em propor\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as que nascem. Cada crian\u00e7a nasce querendo ter um autom\u00f3vel, dois autom\u00f3veis, mil autom\u00f3veis. Quantos adultos conseguem materializar suas fantasias infantis? Os numerozinhos dizem que o autom\u00f3vel n\u00e3o \u00e9 um direito, \u00e9 um privil\u00e9gio. Apenas vinte por cento da humanidade disp\u00f5e de oitenta por cento dos autom\u00f3veis, embora cem por cento da humanidade tenha de sofrer o envenenamento do ar. Como tantos outros s\u00edmbolos da sociedade de consumo, o autom\u00f3vel esta nas m\u00e3os de uma minoria, que transforma seus costumes em verdades universais e nos obriga a acreditar que o motor \u00e9 o \u00fanico\u00a0 prolongamento possivel do corpo humano.<\/p>\n<p>O n\u00famero de carros cresce e n\u00e3o p\u00e1ra de crescer nas babil\u00f4nias latino-americanas, mas este n\u00famero continua sendo pequeno na compara\u00e7\u00e3o com os centros da prosperidade mundial. Em 1995, os Estados Unidos e o Canad\u00e1, juntos, tinham mais ve\u00edculos motorizados do que todo o resto do mundo, tirando a Europa. No mesmo ano, a Alemanha tinha tantos carros, caminh\u00f5es, caminhonetas, motor-homes e motocicletas como a soma de todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1frica. No entanto, de cada quatro mortos por autom\u00f3veis em todo o planeta, tr\u00eas morrem nas cidades do sul do mundo. E dos tr\u00eas que morrem, dois s\u00e3o pedestres. O Brasil tem tr\u00eas vezes menos autom\u00f3veis do que a Alemanha, mas tem tr\u00eas vezes mais v\u00edtimas. Na Col\u00f4mbia ocorrem por ano seis mil homic\u00eddios chamados\u00a0<em>acidentes de tr\u00e2nsito<\/em>.<\/p>\n<p>Os an\u00fancios costumam promover os novos modelos de autom\u00f3veis\u00a0 como se fossem armas. Nisso, ao menos, nao mente a publicidade: acelerar fundo \u00e9 como disparar uma arma, proporciona o mesmo prazer e o mesmo poder. Anualmente, os carros matam no mundo mais gente do que mataram, somadas, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, e em 1990 causaram mais mortes ou incapacidades f\u00edsicas do que as guerras ou a Aids. Segundo as proje\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, no ano 2020 os carros ocupar\u00e3o o terceiro lugar corno fatores de morte ou incapacidade; as guerras ser\u00e3o a oitava causa e a Aids a d\u00e9cima.<\/p>\n<p>A ca\u00e7ada aos que caminham integra as rotinas da vida cotidiana nas grandes cidades latino-americanas, onde a armadura de quatro rodas estimula a tradicional prepot\u00eancia dos que mandam e dos que agem corno se mandassem. A carteira de motorista equivale ao porte de arma e d\u00e1 permiss\u00e3o para matar. H\u00e1 cada vez mais energ\u00famenos dispostos a esmagar quem lhes atravesse o caminho. Nestes \u00faltimos tempos, tempos de histeria da inseguran\u00e7a,\u00e0 impune trucul\u00eancia sobre rodas soma-se o p\u00e2nico dos assaltos e dos seq\u00fcestros. Torna-se cada vez mais perigoso, e cada vez menos freq\u00fcente, parar o carro diante da luz vermelha da sinaleira: em algumas cidades, a luz vermelha \u00e9 como uma ordem de acelera\u00e7\u00e3o. As minorias privilegiadas, condenadas ao\u00a0 medo perp\u00e9tuo, pisam no acelerador para fugir da realidade, e a\u00a0 realidade \u00e9 essa coisa muito perigosa que espreita do outro lado dos vidros fechados do autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>Em 1992 houve um plebiscito em Amsterdam. Os\u00a0 habitantes decidiram reduzir \u00e0 metade a \u00e1rea, j\u00e1 muito limitada, onde circulam os autom\u00f3veis nessa cidade holandesa que e o reino dos\u00a0 ciclistas e dos pedestres. Tr\u00eas anos depois, a cidade italiana de Floren\u00e7a se rebelou contra a carrocracia, a ditadura dos autom\u00f3veis, e proibiu o tr\u00e2nsito de autom\u00f3veis particulares em todo o centro. O prefeito anunciou que a proibi\u00e7\u00e3o se estender\u00e1 pela cidade inteira na medida que se multiplicarem os bondes, as linhas de metr\u00f4, os \u00f4nibus e as vias de pedestres. E tamb\u00e9m as\u00a0 bicicletas: segundo os planos oficiais, ser\u00e1 p<a href=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/0015.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"0015\" alt=\"\" src=\"http:\/\/vadebici.files.wordpress.com\/2011\/11\/0015.jpg?w=300&amp;h=284\" width=\"300\" height=\"284\" \/><\/a>oss\u00edvel atravessar a cidade inteira, sem riscos, por qualquer parte, pedalando ao longo das ciclovias, num meio de transporte que \u00e9 barato e n\u00e3o gasta nada, ocupa pouco lugar, n\u00e3o envenena o ar e n\u00e3o mata ningu\u00e9m, e que foi inventado, h\u00e1 cinco s\u00e9culos, por um vizinho de Floren\u00e7a chamado Leonardo da Vinci.<\/p>\n<p>Moderniza\u00e7\u00e3o, motoriza\u00e7\u00e3o: o ronco dos motores n\u00e3o permite que se ou\u00e7am as vozes denunciativas do artificio de uma civiliza\u00e7\u00e3o que te rouba a liberdade para depois te vender e que te corta as pernas para depois te obrigar a comprar autom\u00f3veis e aparelhos de gin\u00e1stica. Imp\u00f5e-se ao mundo, como \u00fanico modelo\u00a0 poss\u00edvel de vida, o pesadelo de cidades onde os carros governam. As cidades latino-americanas sonham parecer-se com Los Angeles, com seus oito milh\u00f5es de autom\u00f3veis dando ordens a\u00a0 todos. Ambicionamos ser a c\u00f3pia dessa vertigem. Durante cinco s\u00e9culos fomos adestrados para copiar ao inv\u00e9s de criar. J\u00e1 que estamos condenados \u00e0 copiandite, poder\u00edamos, ao menos,\u00a0 escolher nossos modelos com um pouco mais de cuidado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por V\u00e1 de Bici &nbsp; Cap\u00edtulo extra\u00eddo do livro\u00a0De Pernas Pro Ar \u2013 A escola do mundo ao avesso, de Eduardo Galeano: Os direitos humanos se humilham aos p\u00e9s dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2856","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-biblioteca"],"gutentor_comment":0,"featured_image_src":"","featured_image_src_square":false,"author_info":{"display_name":"paulabianchi","author_link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?author=5"},"rbea_author_info":{"display_name":"paulabianchi","author_link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?author=5"},"rbea_excerpt_info":"Por V\u00e1 de Bici &nbsp; Cap\u00edtulo extra\u00eddo do livro\u00a0De Pernas Pro Ar \u2013 A escola do mundo ao avesso, de Eduardo Galeano: Os direitos humanos se humilham aos p\u00e9s dos [&hellip;]","category_list":"<a href=\"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?cat=5\" rel=\"category\">Biblioteca<\/a>","comments_num":"0 comments","uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"post-thumbnail":false,"twentytwenty-fullscreen":false},"uagb_author_info":{"display_name":"paulabianchi","author_link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?author=5"},"uagb_comment_info":0,"uagb_excerpt":"Por V\u00e1 de Bici &nbsp; Cap\u00edtulo extra\u00eddo do livro\u00a0De Pernas Pro Ar \u2013 A escola do mundo ao avesso, de Eduardo Galeano: Os direitos humanos se humilham aos p\u00e9s dos [&hellip;]","wps_subtitle":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2856","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2856"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2856\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2857,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2856\/revisions\/2857"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2856"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2856"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2856"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}