{"id":1762,"date":"2013-10-17T14:21:36","date_gmt":"2013-10-17T17:21:36","guid":{"rendered":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?p=1762"},"modified":"2013-10-16T19:25:21","modified_gmt":"2013-10-16T22:25:21","slug":"a-bicicletada-esta-morta-longa-vida-a-bicicletada-parte-1-bike-e-legal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?p=1762","title":{"rendered":"A Bicicletada est\u00e1 morta. Longa vida \u00e0 Bicicletada! (parte 1) | Bike \u00e9 Legal"},"content":{"rendered":"<p>Por Thiago Benecchio (ESPN)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Sem-t\u00edtulo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-1763\" alt=\"Sem t\u00edtulo\" src=\"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Sem-t\u00edtulo.jpg\" width=\"510\" height=\"105\" srcset=\"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Sem-t\u00edtulo.jpg 638w, https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/Sem-t\u00edtulo-300x61.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Texto originalmente publicado em ingl\u00eas no livro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sfcriticalmass.org\/2012\/07\/16\/cm20-buy-stuff\/\" target=\"_blank\">Shift Happens: Critical Mass at 20<\/a>, organizado por Chris Carlsson, LisaRuth Elliott e Adriana Camarena por ocasi\u00e3o dos 20 anos da Massa Cr\u00edtica de S\u00e3o Francisco em 2012. O livro apresenta artigos sobre bicicletadas em diversas cidades do mundo e pode ser adquirido em vers\u00e3o impressa ou\u00a0<a href=\"http:\/\/www.amazon.com.br\/Shift-Happens-Critical-Mass-ebook\/dp\/B00935JWIE\/ref=sr_1_9?ie=UTF8&amp;qid=1378663625&amp;sr=8-9&amp;keywords=shift+happens\" target=\"_blank\">ebook<\/a>. Este artigo, in\u00e9dio em portugu\u00eas, foi dividido em quatro partes para o Bike \u00e9 Legal.<\/em><\/p>\n<p>\u00a0A Bicicletada, apelido do movimento de Massa Cr\u00edtica no Brasil, acontece h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada em S\u00e3o Paulo, mas nunca chegou a ser t\u00e3o grande quanto os encontros em S\u00e3o Francisco, cidade de origem do movimento. Exceto pelas edi\u00e7\u00f5es anuais que aconteciam no Dia Mundial Sem Carro, quando mais de 500 pessoas participavam, a massa mensal nunca passou da casa de duas ou tr\u00eas centenas de participantes. Ainda assim, a Bicicletada de S\u00e3o Paulo foi o \u201cBig Bang\u201d para muitas iniciativas p\u00fablicas e privadas relativas ao ciclismo urbano no Brasil do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Da simples ideia de que pessoas comuns podem utilizar a bicicleta para se locomover \u00e0s recentes \u201cciclorrotas\u201d criadas pela prefeitura e inspiradas no \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d que tomou as ruas em 2007, \u00e9 ineg\u00e1vel que o pequeno e criativo grupo foi grande respons\u00e1vel pelo in\u00edcio das mudan\u00e7as recentes em uma cidade carroc\u00eantrica de 12 milh\u00f5es de habitantes. Por outro lado, a Bicicletada de S\u00e3o Paulo perdeu muito de sua for\u00e7a como movimento social e, nos \u00faltimos anos, sofre da entediante rotina de ter se tornado apenas mais um passeio de bicicletas sem qualquer aprofundamento pol\u00edtico, cultural ou art\u00edstico (mesmo aqueles relacionados apenas \u00e0 bicicleta).<\/p>\n<p>Depois de uma primeira fase entre 2002 e 2004, os anos de 2005 e 2006 trouxeram um crescimento lento mas permanente: durante os ver\u00f5es, entre 30 e 50 pessoas, \u00e0s vezes 100, participavam; no inverno, as pedaladas reuniam entre 10 e 30 pessoas. A Bicicletada mensal nunca atraiu cobertura da m\u00eddia. Em vez disso, uma pequena rede de blogs e sites foram respons\u00e1veis por sua divulga\u00e7\u00e3o e cobertura, a come\u00e7ar pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.midiaindependente.org\/\" target=\"_blank\">Centro de M\u00eddia Independente<\/a>. A aus\u00eancia da m\u00eddia geralmente significa aus\u00eancia de interfer\u00eancias policiais: os dois \u00fanicos incidentes envolvendo repress\u00e3o aconteceram durante as Pedaladas Peladas de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apocalipsemotorizado.net\/2008\/06\/19\/eram-muitos-os-pelados\/\" target=\"_blank\">2008<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apocalipsemotorizado.net\/2009\/03\/21\/ii-pedalada-pelada-em-sp-a-ousadia-impossivel\/\" target=\"_blank\">2009<\/a>, terminando com ciclistas detidos, spray de pimenta e (claro) muita cobertura da m\u00eddia.<\/p>\n<p>A primeira vez que eu participei da Bicicletada em S\u00e3o Paulo foi no dia 22 de Setembro de 2004, durante o Dia Mundial Sem Carro. Estava gravando\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apocalipsemotorizado.net\/sociedade-do-automovel\/\" target=\"_blank\">um document\u00e1rio sobre transporte<\/a>\u00a0e minha miss\u00e3o era entrevistar um dos participantes e gravar algumas imagens daquele movimento at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido. A minha primeira Bicicletada foi tranquila, com a presen\u00e7a de cerca de 50 pessoas saindo da Avenida Paulista em dire\u00e7\u00e3o ao centro de S\u00e3o Paulo. N\u00e3o apenas conclu\u00ed o roteiro, mas tamb\u00e9m descobri que um bo\u00eamio estudante de jornalismo tamb\u00e9m poderia utilizar uma bicicleta para ir e vir. Fiquei mais alguns meses com a bicicleta que havia emprestado da minha irm\u00e3, em seguida comprei uma para mim e, desde ent\u00e3o, me juntei \u00e0 divertida massa de ciclistas paulistanos nas Bicicletadas e tamb\u00e9m no cotidiano.<\/p>\n<p>Logo depois da minha primeira Bicicletada, me inscrevi em uma\u00a0<a href=\"https:\/\/lists.riseup.net\/www\/info\/bicicletada-sp\" target=\"_blank\">lista de discuss\u00e3o por e-mail<\/a>\u00a0que servia para planejar os passeios e discutir temas relacionados. Ali eu descobri que o nome Bicicletada fora usado pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apocalipsemotorizado.net\/2007\/07\/29\/bicicletada-festa-de-cinco-anos\/\" target=\"_blank\">primeira vez em 20 de Julho de 2001<\/a>, durante um protesto antiglobaliza\u00e7\u00e3o chamado para a mesma data de um encontro do G-8. O inspirador movimento antiglobaliza\u00e7\u00e3o sa\u00eda \u00e0s ruas nos chamados Dias de A\u00e7\u00e3o Global em datas de encontros de organismos multinacionais como FMI, ALCA e OMC, quando os l\u00edderes planet\u00e1rios e corpora\u00e7\u00f5es discutiam como implementar suas plataformas neoliberais em todo o mundo.<\/p>\n<p>Os manifestantes antiglobaliza\u00e7\u00e3o do in\u00edcio do s\u00e9culo (re)descobriram que resgatar as ruas em formas n\u00e3o tradicionais de protesto tamb\u00e9m eram boas formas de protestar. Carros de som com l\u00edderes partid\u00e1rios ou sindicais bradando discursos muitas vezes inintelig\u00edveis ou massas segurando bandeiras e repetindo palavras de ordem pouco significativas eram substitu\u00eddos por jogos de futebol na rua, pessoas distribuindo panfletos feitos em casa, \u201cblack blocks\u201d ou mesmo festas de rua e bicicletas ocupando o espa\u00e7o p\u00fablico, que bloqueavam a engrenagem do sistema e contestavam a ordem do novo capitalismo financeiro.<\/p>\n<p>No entanto, muitos dos grupos e indiv\u00edduos que participaram das Bicicletadas durante os protestos antiglobaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o usavam bicicletas no cotidiano. Assim, houve um pequeno inverno entre a primeira vez que a palavra \u201cBicicletada\u201d foi usada e a origem do encontro mensal de Massa Cr\u00edtica. Em uma manh\u00e3 de s\u00e1bado, 29 de junho de 2002, um pequeno grupo se encontrava na Avenida Paulista para pedalar em dire\u00e7\u00e3o ao centro na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.midiaindependente.org\/pt\/blue\/2002\/07\/30369.shtml\" target=\"_blank\">primeira Bicicletada mensal da cidade<\/a>.<\/p>\n<p>Os encontros de s\u00e1bado n\u00e3o chegavam a atrair mais de 15 pessoas e aconteceram de forma espor\u00e1dica at\u00e9 2004, quando o n\u00famero reduzido de entusiastas e participantes quase acabou com a ideia. Depois de algumas discuss\u00f5es na lista de e-mails e reuni\u00f5es presenciais, o encontro matinal era substitu\u00eddo pela noite de sexta-feira. Em abril de 2005, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apocalipsemotorizado.net\/2005\/04\/30\/32a-bicicletada-de-sao-paulo\/\" target=\"_blank\">primeira Bicicletada na hora do rush acontecia em S\u00e3o Paulo<\/a>, com 7 participantes. A pedalada terminou debaixo do v\u00e3o livre do MASP (Museu de Arte de S\u00e3o Paulo), onde ativistas do Centro de M\u00eddia Independente promoviam uma exibi\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios sobre o oligop\u00f3lio midi\u00e1tico no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Das ruas \u00e0 internet (e vice-versa)<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio, quando a Bicicletada ainda acontecia aos s\u00e1bados, a internet n\u00e3o era um meio t\u00e3o abrangente quanto hoje e a divulga\u00e7\u00e3o dos passeios acontecia por meio de panfletos impressos e da tradicional xerocracia. Os difusores iniciais da ideia estavam ligados a n\u00facleos anarquistas ou eram estudantes universit\u00e1rios. Os primeiros participantes entre 2002 a 2004 eram vinculados direta ou indiretamente a estes grupos. Panfletos deixados no guid\u00e3o de bicicletas estacionadas dentro da Universidade de S\u00e3o Paulo trouxeram alguns dos primeiros adeptos \u201cexternos\u201d ao n\u00facleo inicial de ativistas.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2002 uma lista de discuss\u00e3o por e-mail j\u00e1 estava ativa nos servidores do Riseup, inicialmente congregando pessoas de todo o Brasil que tentavam articular bicicletadas em cidades como S\u00e3o Paulo, Camboriu, Rio de Janeiro, Bras\u00edlia e Florian\u00f3polis. No ano seguinte nascia a lista espec\u00edfica da Bicicletada de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o de ferramentas digitais de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m servia para a publica\u00e7\u00e3o de relatos, fotos e v\u00eddeos e foi important\u00edssima para o crescimento da Bicicletada em uma cidade com as caracter\u00edsticas de S\u00e3o Paulo: al\u00e9m do tamanho da mancha urbana, a cidade sofre com a car\u00eancia de espa\u00e7os p\u00fablicos de encontro e conviv\u00eancia como pra\u00e7as e parques.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Centro de M\u00eddia Independente e das listas de correio eletr\u00f4nico, ferramentas corporativas como Blogspot, Geocities, Youtube e Flickr serviram para informa\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de conte\u00fado, em um trabalho cont\u00ednuo realizado por um punhado de entusiastas. Na mesma \u00e9poca em que comecei a participar da Bicicletada, iniciei o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apocalipsemotorizado.net\/\" target=\"_blank\">blog Apocalipse Motorizado<\/a>\u00a0e me dispus a fazer a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.apocalipsemotorizado.net\/bicicletada\/\" target=\"_blank\">cobertura e a divulga\u00e7\u00e3o mensal dos eventos<\/a>. O t\u00edtulo do blog foi inspirado em um livro hom\u00f4nimo, publicado alguns anos antes por um dos participantes iniciais da Bicicletada, e que trazia uma colet\u00e2nea de textos de ecologistas radicais como Ivan Ilich e Andre Gorz, al\u00e9m de um ap\u00eandice chamado \u201cAlgumas ideias anti-carro\u201d, com textos da revista Carbusters, informa\u00e7\u00f5es sobre \u201ccomo organizar uma parada de bicicletas\u201d, explica\u00e7\u00f5es sobre os princ\u00edpios do Critical Mass e ilustra\u00e7\u00f5es de Andy Singer.<\/p>\n<p>Entre 2006 e 2009, o Apocalipse Motorizado chegou a ter cerca de 1000 visitas \u00fanicas por dia e ainda guarda os relatos, fotos e v\u00eddeos de todas as bicicletadas acontecidas entre 2005 e 2009. Junto com o site colaborativo da Bicicletada, com as publica\u00e7\u00f5es no Centro de M\u00eddia Independente e com os relatos espor\u00e1dicos em outros blogs e sites, o Apocalipse Motorizado ajudou a difundir a ideia da Massa Cr\u00edtica, atraindo n\u00e3o apenas os ciclistas de S\u00e3o Paulo para os passeios mensais, mas tamb\u00e9m propagando o conceito para outras cidades do Brasil. Curitiba, Aracaju, Porto Alegre, Bras\u00edlia e dezenas de outras cidades come\u00e7aram a replicar as a\u00e7\u00f5es realizadas em S\u00e3o Paulo, copiando ou adaptando placas, panfletos, cartazes e atividades, da mesma forma que os ativistas e ciclistas paulistanos se utilizaram da inspira\u00e7\u00e3o vinda de S\u00e3o Francisco para criar a Bicicletada paulistana.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, outros blogs come\u00e7avam a tratar do ciclismo urbano e colaboravam para aumentar a \u201cmassa cr\u00edtica\u201d de conhecimento sobre o tema, at\u00e9 ent\u00e3o bastante restrita e desconhecida em S\u00e3o Paulo. Entre os sites que colaboraram para a difus\u00e3o deste conhecimento durante o per\u00edodo inicial da Bicicletada, vale destacar o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ciclobr.com.br\/\" target=\"_blank\">CicloBR<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/falansterios.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">Falanst\u00e9rio<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/blog.ta.org.br\/\" target=\"_blank\">Transporte Ativo<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vadebike.org\/\" target=\"_blank\">V\u00e1 de Bike<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/girame.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Gira-Me<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/pedalante.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Pedalante<\/a>, sendo que muitos outros surgiram com o passar dos anos e ajudaram a engrossar a rede de comunica\u00e7\u00e3o sobre o tema em S\u00e3o Paulo:\u00a0<a href=\"http:\/\/nossoquintal.org\/\" target=\"_blank\">Quintal<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/ecourbana.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Ecologia Urbana<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/igualvoce.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Igual Voc\u00ea<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/panoptico.wordpress.com\/\" target=\"_blank\">Pan\u00f3ptico<\/a>, para citar alguns.<\/p>\n<p>No entanto, a internet \u00e9 apenas um meio de difus\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o que ajuda a potencializar o interc\u00e2mbio entre grupos e indiv\u00edduos, n\u00e3o substituindo a a\u00e7\u00e3o real ou a presen\u00e7a nas ruas. Os sites acima e a pr\u00f3pria bicicleta tiveram a contribui\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de cidad\u00e3os que tiraram fotos, registraram v\u00eddeos ou escreveram relatos em redes sociais e listas de email.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es de rua e a exist\u00eancia de pessoas dispostas a participar e promover a Bicicletada todos os meses foram os maiores respons\u00e1veis pelo seu crescimento e pela sua import\u00e2ncia. A Bicicletada de S\u00e3o Paulo teve outros dois pontos importantes: a criatividade de algumas a\u00e7\u00f5es provocadoras (ligadas especialmente \u00e0 arte urbana) e a busca cont\u00ednua pela no\u00e7\u00e3o de compartilhamento pac\u00edfico das ruas entre ve\u00edculos motorizados e bicicletas.<\/p>\n<p>A ideia de evitar o conflito entre motoristas e ciclistas se reflete no comportamento da pr\u00f3pria massa ao longo dos anos: motivada talvez pela necessidade intr\u00ednseca de sobreviv\u00eancia de um grupo que sempre foi pequeno. Ainda que os ciclistas desafiassem o status quo, substituindo autom\u00f3veis por bicicletas no espa\u00e7o urbano durante a hora do rush, esta \u201cprovoca\u00e7\u00e3o\u201d estava acompanhada pelo bom senso sobre a sua fraqueza em caso de um conflito f\u00edsico, seja com motoristas ou com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>A Bicicletada paulistana tamb\u00e9m teve o cuidado de ocupar o espa\u00e7o nas ruas compat\u00edvel com o seu tamanho: ou seja, quando a participa\u00e7\u00e3o era pequena, apenas uma ou duas faixas de rolamento eram utilizadas, deixando as demais livres para o tr\u00e2nsito motorizado. Em dias de maior p\u00fablico, ocupava-se at\u00e9 tr\u00eas das quatro faixas das avenidas por onde a massa passava.<\/p>\n<p>Nos primeiros anos de sua exist\u00eancia a Bicicletada tamb\u00e9m exerceu um papel educativo direto, distribuindo panfletos aos motoristas com informa\u00e7\u00f5es sobre o direito dos ciclistas de utilizarem a via e sugerindo o compartilhamento das ruas atrav\u00e9s do respeito \u00e0 vida. Os panfletos, produzidos pelos participantes e replicados na base da xerocracia traziam informa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas ou pouco difundidas sobre o uso de bicicletas como meio de transporte e os direitos dos ciclistas. Tais informa\u00e7\u00f5es seriam vistas quase uma d\u00e9cada depois em campanhas oficiais da prefeitura ou de empresas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cada Bicicletada algumas centenas de motoristas recebiam os panfletos, propagando lentamente conceitos que n\u00e3o estavam dispon\u00edveis em nenhuma outra fonte midi\u00e1tica ou institucional. A situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica do tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo, com congestionamentos intermin\u00e1veis e sempre crescentes, facilitou a compreens\u00e3o da ideia de que os ciclistas n\u00e3o s\u00e3o inimigos de motoristas ou est\u00e3o \u201croubando\u201d o espa\u00e7o dos carros, mas sim que a bicicleta ajuda a diminuir os congestionamentos.<\/p>\n<p>A imagem de centenas de bicicletas ocupando o lugar de meia d\u00fazia de carros \u00e9 bastante did\u00e1tica e torna-se mais compreens\u00edvel em uma cidade que vive congestionada por autom\u00f3veis. Ainda assim, alguns poucos epis\u00f3dios de intoler\u00e2ncia e agressividade de psicopatas ao volante aconteceram ao longo dos anos, mas n\u00e3o h\u00e1 registros de nenhum caso mais grave de ferimentos ou brigas envolvendo os participantes da Massa Cr\u00edtica e os motoristas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A \u201cdesobedi\u00eancia educativa\u201d da Bicicletada tamb\u00e9m procurou manter boas rela\u00e7\u00f5es com os usu\u00e1rios de transporte coletivo e com os pedestres: geralmente a massa deixava livre as faixas utilizadas pelos \u00f4nibus, demonstrando que o grande entrave da mobilidade urbana \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o excessiva de autom\u00f3veis. Al\u00e9m disso, sempre houve preocupa\u00e7\u00e3o com o respeito \u00e0 travessia de pedestres e n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que muitos ciclistas de S\u00e3o Paulo aprenderam a dar prefer\u00eancia aos pedestres na Bicicletada.<\/p>\n<p>Essas duas caracter\u00edsticas n\u00e3o foram absolutas e provocaram algumas pol\u00eamicas entre os participantes, j\u00e1 que as faixas de \u00f4nibus liberadas geralmente eram ocupadas tamb\u00e9m por autom\u00f3veis e o fato da massa parar para pedestres muitas vezes quebrava a coes\u00e3o do grupo, aumentando o risco de algum motorista impaciente se colocar no meio dos ciclistas. Mas \u00e9 poss\u00edvel dizer que, ao longo dos anos, houve um equil\u00edbrio bastante positivo e inteligente entre transgress\u00e3o e respeito, fato que ajudou n\u00e3o apenas a fazer crescer a massa, como tamb\u00e9m serviu para aglutinar simpatia ou ao menos toler\u00e2ncia da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em id=\"__mceDel\">(CONTINUA&#8230;)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Thiago Benecchio (ESPN) Texto originalmente publicado em ingl\u00eas no livro\u00a0Shift Happens: Critical Mass at 20, organizado por Chris Carlsson, LisaRuth Elliott e Adriana Camarena por ocasi\u00e3o dos 20 anos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uag_custom_page_level_css":"","ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-1762","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-biblioteca"],"gutentor_comment":9,"featured_image_src":"","featured_image_src_square":false,"author_info":{"display_name":"paulabianchi","author_link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?author=5"},"rbea_author_info":{"display_name":"paulabianchi","author_link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?author=5"},"rbea_excerpt_info":"Por Thiago Benecchio (ESPN) Texto originalmente publicado em ingl\u00eas no livro\u00a0Shift Happens: Critical Mass at 20, organizado por Chris Carlsson, LisaRuth Elliott e Adriana Camarena por ocasi\u00e3o dos 20 anos [&hellip;]","category_list":"<a href=\"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?cat=5\" rel=\"category\">Biblioteca<\/a>","comments_num":"0 comments","uagb_featured_image_src":{"full":false,"thumbnail":false,"medium":false,"medium_large":false,"large":false,"1536x1536":false,"2048x2048":false,"post-thumbnail":false,"twentytwenty-fullscreen":false},"uagb_author_info":{"display_name":"paulabianchi","author_link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?author=5"},"uagb_comment_info":9,"uagb_excerpt":"Por Thiago Benecchio (ESPN) Texto originalmente publicado em ingl\u00eas no livro\u00a0Shift Happens: Critical Mass at 20, organizado por Chris Carlsson, LisaRuth Elliott e Adriana Camarena por ocasi\u00e3o dos 20 anos [&hellip;]","wps_subtitle":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1762","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1762"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1762\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1765,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1762\/revisions\/1765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1762"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1762"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1762"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}