{"id":1099,"date":"2012-09-21T19:42:47","date_gmt":"2012-09-21T22:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?p=1099"},"modified":"2012-09-21T19:42:47","modified_gmt":"2012-09-21T22:42:47","slug":"dez-razoes-para-levar-a-serio-o-dia-mundial-sem-carro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ciclovida.ufpr.br\/?p=1099","title":{"rendered":"DEZ RAZ\u00d5ES PARA LEVAR A S\u00c9RIO O DIA MUNDIAL SEM CARRO"},"content":{"rendered":"<p><em>O pr\u00f3ximo s\u00e1bado (22) celebra-se mais uma edi\u00e7\u00e3o do Dia Mundial sem Carro. Veja aqui algumas raz\u00f5es que emprestam sentido a essa data<\/em><\/p>\n<p>Por <strong>eduardo.carvalho<\/strong>, publicado no blog Mundo Sustent\u00e1vel, de <strong>Andr\u00e9 Trigueiro<\/strong>, no G1<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.jangadeiroonline.com.br\/uploads\/2011\/09\/1316520461semcarro.jpg\" alt=\"\" width=\"380\" height=\"316\" \/><\/p>\n<p>1) Tamanho \u00e9 documento<br \/>\nA multiplica\u00e7\u00e3o indiscriminada da frota automobil\u00edstica j\u00e1 \u00e9 um dos maiores problemas da Humanidade. Na maioria das capitais brasileiras (e mundiais) j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 a chamada \u201chora do rush\u201d, porque sucessivos congestionamentos em diferentes horas do dia colapsam o tr\u00e2nsito progressivamente. A constru\u00e7\u00e3o de mais pontes, viadutos, t\u00faneis ou vias expressas s\u00e3o paliativos, n\u00e3o resolvem efetivamente o problema, como muitas vezes, indiretamente, contribuem para estimular o uso do carro. A mobilidade urbana se tornou quest\u00e3o central do debate sobre qualidade de vida nas cidades.<\/p>\n<p>2) \u00c9 bom para a economia?<br \/>\nEstima-se que o setor automotivo responda por aproximadamente 20% do PIB brasileiro. Entre 2009 e 2011, as montadoras de ve\u00edculos informam ter recolhido em impostos diretos R$ 137 bilh\u00f5es. Se as montadoras de todo o planeta fossem um pa\u00eds, este seria um dos dez mais ricos do mundo. \u00c9 bom lembrar que junto \u00e0s linhas de montagem, orbitam os setores de autope\u00e7as e combust\u00edveis, al\u00e9m do mercado de seguros e outros agregados. Se n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que os autom\u00f3veis fazem girar a roda da economia, tamb\u00e9m \u00e9 certo que o impacto do crescimento da frota nas cidades tem inspirado outro g\u00eanero de contabilidade preocupante.<\/p>\n<p>Segundo o secret\u00e1rio Municipal de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Trabalho de S\u00e3o Paulo, Marcos Cintra, os preju\u00edzos causados pelos engarrafamentos crescentes na cidade somam R$ 52,8 bilh\u00f5es por ano, o equivalente a mais de 10% do PIB municipal. Um crescimento de 60% nos \u00faltimos quatro anos. Se outras cidades incomodadas com os engarrafamentos realizarem c\u00e1lculos semelhantes, os resultados dever\u00e3o ser surpreendentes.<\/p>\n<p>3) A quest\u00e3o do IPI<br \/>\nSabe-se que o governo federal reduz periodicamente o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) que incide sobre autom\u00f3veis, toda vez que o setor reclama de queda nas vendas e risco de desemprego. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00eamica, uma vez que a medida n\u00e3o vem acompanhada de contrapartidas sociais e ambientais que pudessem justificar tamanha ren\u00fancia fiscal.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, o governo Obama socorreu as montadoras com pesadas contrapartidas (manuten\u00e7\u00e3o do emprego, maior efici\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica na dire\u00e7\u00e3o de uma nova gera\u00e7\u00e3o de motores mais econ\u00f4micos). \u00c9 lament\u00e1vel que o dinheiro arrecadado pelo governo com a venda de carros n\u00e3o esteja sendo devidamente investido em transporte p\u00fablico de massa eficiente, barato e r\u00e1pido. N\u00e3o custa checar tamb\u00e9m o quanto as montadoras de ve\u00edculos instaladas no Brasil transferem em divisas para as respectivas matrizes fora do pa\u00eds.<\/p>\n<p>4) O \u201ccarrocentrismo\u201d<br \/>\nNo livro \u201cMuito Al\u00e9m da Economia Verde\u201d (Ed.Abril) o professor titular do Departamento de Economia da FEA e do Instituto de Economia Internacional da USP, Ricardo Abramovay, afirma que o autom\u00f3vel \u00e9 \u201ca unidade entre duas eras em extin\u00e7\u00e3o: a do petr\u00f3leo e a do ferro. Pior: a inova\u00e7\u00e3o que domina o setor at\u00e9 hoje consiste mais em aumentar a pot\u00eancia, a velocidade e o peso dos carros do que em reduzir seu consumo de combust\u00edveis (\u2026) O mais grave \u00e9 que ali onde houve inova\u00e7\u00f5es nessa ind\u00fastria ela se voltou mais a preencher desejos privados por carros maiores, mais r\u00e1pidos e de melhor desempenho do que a reais interesses p\u00fablicos por ve\u00edculos mais econ\u00f4micos e de uso partilhado. Foi s\u00f3 em 2007 que, pela primeira vez em 32 anos (houve um precedente logo ap\u00f3s a primeira crise do petr\u00f3leo), a lei americana imp\u00f4s metas de economia de combust\u00edveis aos ve\u00edculos fabricados pela ind\u00fastria automobil\u00edstica.<\/p>\n<p>5) Lata de sardinha<br \/>\nO sucateamento do transporte p\u00fablico no Brasil \u2013- responsabilidade dos governos \u2013- determina um dos maiores fatores de estresse para milh\u00f5es de brasileiros. S\u00f3 quem \u00e9 passageiro e j\u00e1 passou pelo aperto de um trem, de um metr\u00f4, de um \u00f4nibus ou de uma barca (experi\u00eancia desconhecida pela maioria dos governantes, alguns dos quais muito mal acostumados com os batedores que escoltam seus carros oficiais ou vivem refugiados no vai-e-vem de helic\u00f3pteros barulhentos) sabe o tamanho do desgaste f\u00edsico e emocional que isso representa.<\/p>\n<p>Em boa parte dos casos, quem sofre a agonia di\u00e1ria de chegar ao trabalho exaurido, com a roupa amarrotada e cansado pelas horas de aperto no transporte coletivo, sonha em ter um carro para se livrar desse pesadelo. O racioc\u00ednio \u00e9 mais ou menos o seguinte: melhor sofrer nos engarrafamentos em seu pr\u00f3prio carro, ouvindo um agrad\u00e1vel \u201csonzinho\u201d no ar -condicionado, do que seguir apertado por a\u00ed. O que parece ser l\u00f3gico e justo no campo individual constitui um enorme problema na esfera coletiva. A incompet\u00eancia dos governos em assegurar o direito constitucional de um transporte p\u00fablico decente agrava a perda da mobilidade urbana numa escala sem precedentes.<\/p>\n<p>6) Uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica<br \/>\nOs dados s\u00e3o do dr. Paulo Saldiva, pneumologista da USP: quem mora em S\u00e3o Paulo, cidade com o maior n\u00famero de carros do Brasil, onde a maior fonte de polui\u00e7\u00e3o vem justamente do escapamento dos ve\u00edculos, est\u00e1 vivendo em m\u00e9dia dois anos a menos em fun\u00e7\u00e3o de problemas causados ou agravados pela inala\u00e7\u00e3o de poluentes presentes na fuma\u00e7a. S\u00e3o aproximadamente quatro mil \u00f3bitos por ano.<\/p>\n<p>7) O maior dos sonhos de consumo<br \/>\nConcebido inicialmente apenas como um meio de transporte, o carro foi ganhando, ao longo de sua hist\u00f3ria \u2013 talvez mais do que qualquer outra inven\u00e7\u00e3o moderna \u2013 uma representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que explica o fasc\u00ednio que exerce sobre as pessoas em todo o mundo h\u00e1 muitas d\u00e9cadas. A publicidade soube trabalhar bem esse sentimento, transformando no imagin\u00e1rio coletivo os carros em met\u00e1foras de nossas exist\u00eancias, onde os sonhos de liberdade, poder, for\u00e7a, status social, beleza, juventude, auto-afirma\u00e7\u00e3o, a capacidade de desbravar obst\u00e1culos antes intranspon\u00edveis, a possibilidade de chegar \u00e0 frente de todo mundo (j\u00e1 reparou que carro s\u00f3 anda sem engarrafamentos em comerciais de TV?) tornaram-se \u201cposs\u00edveis\u201d e \u201cao alcance de todos\u201d com a simples posse de um ve\u00edculo automotor. Como resumiu uma campanha publicit\u00e1ria recente sobre um determinado ve\u00edculo: \u201cou voc\u00ea tem, ou voc\u00ea n\u00e3o tem\u201d.<\/p>\n<p>8 ) O efeito Pateta<br \/>\nEm \u201cMotormania\u201d, desenho animado de Walt Disney do ano de 1950, o d\u00f3cil Pateta se transforma ao volante em algu\u00e9m raivoso, ego\u00edsta e perigoso (veja o v\u00eddeo). Algu\u00e9m que dirige alucinadamente no tr\u00e2nsito oferecendo risco a si pr\u00f3prio e aos outros. Em depoimento registrado no livro \u201cO autom\u00f3vel: planejamento urbano e a crise das cidades\u201d (Ed.Fiscal Tech), a psic\u00f3loga Iara P. Thielen, diretora do N\u00facleo de Psicologia do Tr\u00e2nsito da Universidade Federal do Paran\u00e1, diz que \u201c as pessoas t\u00eam um sentimento de individualismo exagerado. Elas n\u00e3o v\u00eaem o tr\u00e2nsito como um fen\u00f4meno coletivo. Por isso elas acreditam que, em primeiro lugar, o problema \u00e9 sempre dos outros, que s\u00e3o loucos e que correm, enquanto que elas apenas exageram um pouquinho\u201d.<\/p>\n<p>9) O impacto sobre o clima<br \/>\nAtualmente a frota automobil\u00edstica do mundo \u00e9 superior a 800 milh\u00f5es de carros. De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), apenas a China dever\u00e1 aumentar sua frota de 17 milh\u00f5es de carros para 343 milh\u00f5es de carros at\u00e9 2030. Segundo a secret\u00e1ria de Economia Verde do Estado do Rio de Janeiro, a professora da COPPE\/UFRJ, Suzana Kahn, que tamb\u00e9m integra o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC), o setor de transportes \u00e9 respons\u00e1vel onde por 23% das emiss\u00f5es globais de gases estufa (que agravam o aquecimento global) e cerca de 50% a 70% dos poluentes atmosf\u00e9ricos. Os autom\u00f3veis sozinhos respondem por metade de tudo isso.<\/p>\n<p>10) \u201cA era do autom\u00f3vel\u201d, por Jo\u00e3o do Rio<br \/>\nMembro da Academia Brasileira de Letras, Jo\u00e3o do Rio registrou em 1909, numa cr\u00f4nica prof\u00e9tica, alguns dos problemas causados pela multiplica\u00e7\u00e3o indiscriminada de autom\u00f3veis nas ruas das cidades. Note-se que esta cr\u00f4nica foi publicada em 1909 quando apenas 37 autom\u00f3veis rodavam pelas ruas do Rio de Janeiro, ent\u00e3o com 500 mil habitantes. O texto foi reproduzido na \u00edntegra no livro \u201cO autom\u00f3vel : planejamento urbano e a crise das cidades\u201d (Ed.Fiscal Tech). Destaco aqui apenas o in\u00edcio e o final da cr\u00f4nica:<\/p>\n<p>\u201cE subitamente, \u00e9 a Era do Autom\u00f3vel. O monstro transformador irrompeu, bufando, por entre os escombros da cidade velha, e como nas m\u00e1gicas e na natureza, asp\u00e9rrima educadora, tudo transformou com apar\u00eancias novas e novas aspira\u00e7\u00f5es (\u2026). Autom\u00f3vel, Senhor da Era, Criador de uma nova vida, Ginete Encantado da transforma\u00e7\u00e3o urbana, Cavalo de Ulysses posto em movimento por Satan\u00e1s, G\u00eanio inconsciente da nossa metamorfose!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pr\u00f3ximo s\u00e1bado (22) celebra-se mais uma edi\u00e7\u00e3o do Dia Mundial sem Carro. 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